SALA DE IMPRENSA

Limoeiro do Norte consolida-se como a terra da cantoria

Quinta edição foi a maior da história do Festival Internacional de Trovadores e Repentistas. Seminário foi marcado por discussões sobre permanência e importância da cultura popular.

Cerca de 10 mil expectadores, 54 atrações musicais e 15 palestrantes fizeram desta a maior edição do Festival Internacional de Trovadores e Repentistas que, pela segunda vez consecutiva de cinco, teve a “Princesa do Vale” Limoeiro do Norte como palco. “Sem dúvida nenhuma, este foi o mais bem sucedido festival. Seja pela participação do público, seja pela qualidade e variedade das atrações”, avalia o coordenador Geraldo Amâncio.

Para celebrar todo este sucesso, quem fechou a programação, na noite do último domingo 27, foi a cirandeira pernambucana Lia de Itamaracá. Prestes a completar 66 anos, dos quais 54 de ciranda, a artista fez com que os presentes abrissem uma grande roda na Praça da Igreja Matriz, onde estava montado o palco, para dançarem os cocos de roda, maracatus e cirandas entoados por ela.

Lia está para a cultura pernambucana como Patativa do Assaré está para a do Ceará, tanto que ostenta o título de Patrimônio Vivo da Cultura e a medalha Mérito Cultural entregue em 2005 pelo presidente Lula. Batizada como Maria Madalena Correia do Nascimento, sua trajetória é cheia de percalços. Nascida pobre e com pouco acesso à instrução formal, Lia foi inspiração e parceira de diversos compositores famosos como Capiba e Teca Calazans na década de 1970. Contudo, passou décadas no ostracismo, vivendo como cozinheira e merendeira de escola pública em Pernambuco. Hoje, Lia tem no currículo shows na Europa, embora lamente ter a sua arte “bem mais reconhecida lá do que aqui, porque santo de casa não faz milagre mesmo”. Afirma ainda, com seu jeito tímido e linguajar típico da Ilha de Itamaracá, já ter passado “por muitos piores, mas hoje posso bater no peito e dizer ‘eu sou é Lia de Itamaracá”.

A cantora, pesquisadora, fundadora do curso de Canto Popular da Escola Nacional de Música de Brasília Myrlla Muniz encerrou o penúltimo dia do Festival com o show Romanceiro do Sertão. O espetáculo, sobre o amor romântico no sertão, feito de cantigas de amor com leitura nordestina, é, como revela a artista, resultado de uma pesquisa do cancioneiro popular, das músicas cantadas pelos cegos nas praças do interior, como o cego Oliveira, composto por versões originais de canções como Asa branca e Abre a porta e a janela.

Para o coordenador Geraldo Amâncio, uma novidade com boa recepção por parte do público foi a participação dos trovadores italianos e o cantador cubano. Os europeus trouxeram cantigas medievais da região mediterrânea, acompanhados por um pequeno acordeão de apenas dois baixos, e a ottava rima, a tradicional trova improvisada de oito versos em decassílabos.

Seminário debateu a cultura oral

O seminário “Vozes de mestres: a palavra (en)cantada na cultura oral nordestina” se estendeu pelos quatro dias do evento, promovendo o intercâmbio entre acadêmicos e artistas. Contou ainda com as palestras do diretor de cultura da província de Tunas (Cuba) Elíecer Fernandes e do professor da universidade de Nápoles (Itália) Paolo Scarnecchia. Para a curadora do seminário, a professora doutora em História e Cultura Popular Simone de Castro, os resultados são extremamente positivos, apoiados em discussões ricas e promovidas com o diálogo entre pesquisadores e realizadores (da arte de transmissão oral da cultura).

Os próximos desafios, segundo Simone, é esmiuçar e incentivar pesquisas e articulação de artistas sobre o gênero embolada, “pouco inserida na academia e grande contribuidora para a cantoria”, conforme ressalta. Outro aspecto observado pela curadora é a necessidade de envolvimento maior com a comunidade acadêmica da região jaguaribana, considerada por Amâncio a mais vocacionada para a arte do improviso no Ceará.

Iniciada articulação para rede internacional

Esta edição também trouxe como destaque a aproximação cada vez mais iminente da arte regional nordestina com os seus correspondentes no exterior. O intuito deste trabalho é estabelecer um canal de diálogo e troca de experiências entre artistas da Europa, Oriente Médio e américas do Sul e Central, preservando essa tradição.

Geraldo Amâncio e Paolo Scarnecchia iniciaram um projeto conjunto de internacionalização das modalidades de cultura e poesia oral. “É uma idéia embrionária, mas que vai dar muito o que falar. Paolo será uma espécie de embaixador nosso no exterior e principalmente na Europa, para intensificarmos as relações entre os artistas dos diversos países com tradições semelhantes às nossas”, pontua Amâncio.

“Qualquer país que se banha no Mediterrâneo tem a tradição da improvisação, ela é quase universal e me parce uma necessidade do homem. Eu quero muito que nossa vinda possas ser considerada a primeira iniciativa para o diálogo e intercâmbio entre artistas brasileiros, europeus e centro americanos”, afirma Scarnecchia, que coordena a União Universitária do Mediterrâneo, onde desenvolve um trabalho com a Direção Cultural do Alentejo, em Portugal, para o desenvolvimento de uma base de dados sobre a poesia oral de improviso. Segundo ele, não se pode ter um projeto ítaloportuguês sem que Portugal não pense no outro lado do Atlântico.

Para Simone, as discussões promovidas pelo V Festival Internacional de Trovadores e Repentistas confirmam cada vez mais o princípio de união da cultura oral mundial, proposto pelo idealizador do festival, o cineasta Rosemberg Cariry. “A tendência é colocar em prática a idéia inicial do Rosemberg, que acreditava na união das tradições orais dispersas em uma espécie de diáspora, comenta Simone. “A oralidade permeia toda a humanidade, queremos unir vozes separadas geograficamente falando, mas unidas do ponto de vista de veículo transmissor das tradições orais”, destaca.